Buraco do Pai Popin Reloaded

quarta-feira, novembro 30, 2005

Retrospectiva 2005 - Memórias Gustativas

Pelos idos de Agosto desse ano, fui obrigado a tirar uns dias de "férias" nas montanhas da Gávea. Deixando de lado as circunstâncias desagradáveis que me levaram até lá, até que a temporada nos Alpes Cariocas não foi de todo ruim...

Nos dias em que estive acamado, fui apresentado a todo um mundo novo de sabores e sensações que nem sabia que existia. Sempre tive aquilo que se chama de "estômago de criança", o que pode ser traduzido para os não-iniciados nos prazeres da gastronomia simplesmente como bife-arroz-e-batatafrita. Feijão? Ocasionalmente e, mesmo assim, só o caudinho... Sei lá, sabe? Nunca fui muito com a cara do caroço do feijão. Tenho diferenças irreconciliáveis com as carnes que vão nele também...

Frango ao molho de iogurte, Bacalhau à Gomes de Sá, Linguado ao Molho de Maracujá, Filet de Frango ao molho de ervas finas.. Suflê para todos os gostos. Cenoura, couve-flor, espinafre... Todos com a leveza de algo que paira no etéreo. Desfazem-se delicadamente ao tocar o céu da boca, enquanto rogamos a Deus, de mãos postas junto à face, que nos congele naquele momento com um quê lascivo. Por breves instantes, não há acessos venosos, soro, antibióticos. Pode-se mesmo reencontrar a dignidade, voltar a ser gente.

Entre as refeições, um livro ou um jornal, tudo ao gosto do frêgues. Também pode-se matar o tempo com um filmezinho da sessão da tarde. Aliás, sou só eu que sofro de TPSdT - Tensão Pré-Sessão da Tarde? Sempre fico com aquele friozinho na barriga, mãos suadas, torcendo para passar algo do tipo "Curtindo a Vida Adoidado", "Goonies", "Clube dos Cinco", "Quero ser grande", " O Menino da Bolha de Plástico", "O Campeão", dentre outros sucessos de público e crítica que ajudaram muita gente a passar tardes e tardes pachorrentas em frente à TV. Aquele que nunca sonhou ser Ferris Buller, que atire a primeira pedra!

Também encontro tempo para, deitado no meu leito, tentar elucidar uma das questões que muito intriga minha mente irriquieta. Por que todas as mulheres bonitas do Rio de Janeiro escolhem ser fisioterapeutas respiratórias? Todos os dias, em meu quarto, era um desfile inebriante de peles doces, sedosas. Algumas morenas, outras clarinhas... Olhos azuis e verdes que acendem o ambiente. Não sei, mas dizem até ser pré-requisito para trabalhar lá... Só o que sei é que nunca em minha vida foi tão prazeroso soprar um "charutinho" que faz um barulhinho infame.

sábado, novembro 26, 2005

Carta a um colega blogueiro e sua resposta

Já um pouco mais refeito do baque de ontem, tenho de concordar com você. Me excedi, deixei-me levar pela emoção do momento... Já faz uns bons 30 e poucos anos que o Paul não faz nada que preste... Talvez dois momentos recentes, que podem ser interpretados como uma certa redenção dele, tenham me levado a tão despropositada afirmativa.

O primeiro, sem dúvida, é o lançamento do "Smile" de Brian Wilson. Se não fosse a rixa com Paul - no DVD ele chega aos píncaros da humildade ao dizer que queria que McCartney gostasse do disco, pois o mesmo fora feito para ele -, não teríamos acesso a essa formidável e embasbacante aventura musical... Não veríamos o gênio criativo do Wilson transformar o insólito e o esquizofrênico em sublime arte.

O segundo - um pouco mais questionável, é verdade - foi a apresentação junto ao U2, no live 8, cantando Sgt Pepper's. De alguma forma, pudemos vivenciar novamente algo que foi bom... Experiências e sensações, há tanto adormecidades, estavam lá novamente - sim, sou um pouco emotivo, até melancólico às vezes.

De quaquer forma, espero que releve a intempestividade de ontem... Não bastasse perder o cara que dissera "Meu dinheiro gastei em mulheres, bebidas e carros. O resto desperdicei", foi-se também o Senhor Miyagi. "Paint the fence", "Wax on/wax off" e "Sand the floor" tiveram um grande impacto em minha vida e na construção de meu caráter. Ontem, definitivamente, não era senhor de minhas faculdades...

Nota do autor: Isto era para ser um "comentário do comentário" feito pelo nobre colega Werner no último post. Quando tomei por conta do tamanho do texto, resolvi publicá-lo (com algumas alterações) também como um post.

sexta-feira, novembro 25, 2005

There goes my hero

O sonho não acabou, mas definitivamente ficou mais triste hoje. George Best, o "quinto Beatle", já não está entre nós. Não direi aqui que não conseguiu driblar a morte, pois até esta passou para trás em 2002, com a mesma fantasia que desfilava nos campos. Direi apenas, e tão somente, que cansou, pediu para sair. Em sua última entrevista, semanas atrás, disse de forma premonitória: "Tive uma vida boa".

Agora, só nos restam Ringo e, principalmente, Paul...

"Thanks Bestie for the Magic!"

"United!!!!"

terça-feira, novembro 22, 2005

Ramones, Salinger, Roth...

Acabei de ler "O apanhador no campo de centeio" de J.D. Salinger. Um relato frenético de uma alma perturbada que está de saco cheio das coisas, das pessoas, do mundo. Para Holden Caulfield - herói e vilão da narrativa -, o mundo é um lugar cheio de cretinos cínicos e vazios espalhados por todos os cantos. Transvestem-se de advogados, professores, jogadores de futebol, colegas de quarto. Enfim, um sentimento de decepção com a condição humana transborda dele...

É fantástico como conseguimos nos identificar - pelo menos eu me identifiquei bastante - tanto com uma história que foi escrita na década de quarenta. Os mesmos pensamentos, os mesmos questionamentos, os mesmos "coices na vida" estão lá no livro e aqui em minha cabeça. Aliás, as semelhanças não param no campo psicológico. Invadem também o domínio físico: Caufield, assim como eu, já é grisalho desde cedo.

"O apanhador.." é um daqueles livros especiais que te deixam uma sensação esquisita ao terminar de ler. É esquisito, mas é bom. Não sei se vocês entendem... A mesma sensação tive quando li "O Complexo de Portnoy" de Philip Roth... Ambos tem esse ritmo de narrativa que mais parece uma locomotiva passando à todo vapor. Uma enxurrada de frases e assuntos, que não estando em ordem cronológica, dão a dimensão exata da crise emocional por qual passam os personagens centrais dos dois livros.

Enquanto lia as duas histórias, não consegui deixar de pensar em uma trilha sonora para elas. Sei que isso é ridículo, mas sem dúvida, esta trilha seria I wanna be sedated e I don't wanna grow up. Cheguei à tosca conclusão de que Ramones é J.D. Salinger e Philip Roth musicados.

Obs: Ah, não estou nem com vontade de matar um pop-star, não.

sábado, novembro 19, 2005

É hoje!

Faltam três horas e quarenta minutos!

Ah, eu também acredito no galinho!!!

Aquele alguém que já não sou eu

Onde está aquele menino? Impetuoso, já aos três anos de idade, desvelava diante de seus pares de fralda e mamadeira a sórdida verdade por de trás daquele velhinho que vestia vermelho e fedia a Jack Daniels. Investiu sem titubear sobre a barba postiça do sujeito e, em triunfo, empunhado um tufo de cabelos brancos, jogou por terra a trama desavergonhada e mentirosa com a qual os pais tentam enredar seus filhos. Em que pese a falta de dentes na boca, já era uma reserva moral com tão poucas primaveras vividas.

Em que momento me perdi deste menino? Este garoto que estava talhado para coisas grandes, que nasceu para ser um líder. Duro, com certeza, mas que trazia também em seu olhar uma ternura própria dos grandes. Um moleque que com seus atos cativaria mentes e corações. Com suas sábias palavras e seu tom de voz macio e confiante, se faria escutar por todos, fossem eles presidentes ou operários. Quem sabe, talvez fizesse a paz entre árabes e israelenses ou descobrisse a cura para o câncer, ou ainda uma forma de fazer a barba que não irritasse a pele sensível.

Como fui me tornar esse poltrão sem fibra que se esconde de tudo debaixo do seu edredom? Como posso preferir a pasmaceira de meu quarto a uma vida vibrante, com muitas frustrações, é verdade, mas também com muitas cores, alegrias e sons? Por que não consigo olhar os outros nos olhos? Dizer o que quero dizer? Por que não consigo encarar a vida de uma forma mais leve? É impossível que tudo tenha a gravidade que acho que tem, não é?

Bem, não sei... Mas tenho certeza que aquele garoto saberia.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Contagem regressiva

O próximo final de semana promete. Sábado às 16:30, o clímax de 2005. Real Madrid x Barcelona. Precisa falar mais alguma coisa?

Ah, uma esmolinha cultural, por amor de Deus! O que ser "Cinema, Aspirinas e Urubus"? Dá barato esse negócio aí?

Amigos

Uma mesa de bar. Três canecas bem geladas de cerveja. O aipim com carne seca e queijo derretido mais safado que já vi em toda a minha vida. Bons papos, boas risadas. Besteiras, sandices e mais boas risadas. Mais uma rodada e depois outra. Sem horários e prazos a cumprir. Sem comprossimos a regular o tempo. Preocupações, medos, anseios deixados de lado até o momento em que abrirmos a porta do carro e tomarmos o rumo de casa. Por longas horas - não tão longas como eu gostaria -, a vida tão atroz e cruel de lá de fora se resume à conversa fiada e petiscos...

Junto a meus companheiros "rubro-pretos", cometo a blasfêmia das blasfêmias. Regozijo-me com a vitória "dos Framengo". Chego a, por vezes, flagrar-me pedindo (em coro com a horda) um gol de Obina, quando esse pé de pano adentra o campo de jogo com a vitória por 3 x 0 já assegurada. No entanto, não há espaço para contrição, muito menos para lamentar a derrota do meu Gigante da Colina no jogo de fundo. Afinal de contas, fomos surrados por um dos nossos - Ah, é Edmundo!

Mesmo com o passar do tempo e até com o descuido no trato de laços tão sagrados, é incrível como a mágica ainda continua lá...

segunda-feira, novembro 14, 2005

Crise dos Comentários - CPMI JÁ!!!

Visitantes,
venho por meio deste breve comunicado pedir-lhes uma colaboração. O sistema de verificação de palavras, que impede que se receba comentários indesejados (mercearia do João, quitanda do Arlindo...), parece estar impedido que se façam comentários neste humilde blog. Recebi notificações a esse respeito das duas únicas almas caridosas que se dispõem a comentar as tranqueiras que escrevo.

Sendo assim, resolvi desativar esse sistema visando erradicar a seca de comentários, problema que assola de forma devastadora blogs desinteressantes como o meu. Peço-lhes que tentem agora postar comentários... Vale qualquer coisa: achincalhes, xingamentos, descomposturas, reclamações... Isso... Utilizem o espaço de forma catártica! O primeiro a fazê-lo serei eu.

Persistindo o problema, peço que me enviem um mail (encontra-se no perfil) para que eu possa tomar as atitudes cabíveis junto as autoridades competentes.

Sem mais no momento,
Pai Popin.

domingo, novembro 13, 2005

Vazio versão pós-PROZAC

Cem pensamentos. Cem idéias. Cem planos ou projetos. Cem rumos ou metas. Cem sonhos e, principalmente, sem sono. Cem emoções. Cem alegrias, mas também cem tristezas. Cem arrependimentos, cem grandes descobertas. Cem prazos. Cem cobranças, compromissos. Cem trabalhos. Cem dores, cem rancores. Cem preocupações, cicatrizes e cáries.

Cem lugares a ir, cem pessoas a conhecer. Cem culturas a provar, cem pratos e sabores a vivenciar. Cem vinhos a acompanhar. Cem livros a ler, filmes e peças a assistir e cem quadros a sentir. Cem corações a confortar, cem crianças a ninar. Cem histórias a contar, cem "causos" a escutar. Cem passados, cem presentes, cem futuros... Cem esperanças, cem certezas, mas também cem dúvidas.

Cem sons, cem músicas. Cem pássaros e seus cantos. Cem pombas arrulhando, cem sapos coaxando e cem guaxinins fazendo sei lá o que guaxinins fazem. Cem cores, cem pretos e brancos. Cem amores. Cem paixões, cem frios na barriga. cem corações disparados ou sobressaltos. cem arquejos. Cem mãos dadas, abraços. Cem olhares furtivos ou os famosos 43. Cem prazeres... Até o próximo compromido...

sexta-feira, novembro 11, 2005

Reflexões

Minha vida inteira procurei por Deus... O tempo todo Ele estava no meu bolso...

quinta-feira, novembro 10, 2005

Experiência coletiva

Acho que todo mundo já viu isso pelo menos uma vez...

Um cachorro vira-lata, pulguento, com um cheiro que de tão ruim espanta até as moscas. Lá está ele sentado na frente da padaria. Ninguém lhe dá um pingo de atenção. Pouco lhe importa, pois ele também não está nem aí para os beberões boquirrotos. Seus olhos e seu faro estão totalmente hipnotizados por aquela caixa metálica pesadona, desengonçada. Saliva e, quem sabe, sonha com a asa, o peito, as coxas do frango assado. Parece estar experimentado a mesma sensação que nós, humanos, temos quando nos esparramamos no sofá para assistir aquilo que deixou o Cride "burro muito burro demais". Não é à toa que essa caixa é, no popular, alcunhada de "televisão de cachorro".

Bem, foi mais ou menos isso que eu vi, quando pela manhã me dirigia apressado para um compromisso. A única diferença é que o cachorro não estava lá. Muito menos a super-mega-assadeira-de-frangos-three thousand. Em seus lugares, não deixando nada a dever em termos de atuação para os atores originais, estavam um velhinho, que passava fácil dos 70 anos - não uso a caracterização de cabelos brancos para descrever pessoas mais velhas. Minha cabeça é branca e mal adentrei os vinte -, e um grande freezer giratório, onde estavam dispostas da forma mais lasciva possível bolos e tortas das mais diversas cores e credos.

O bom velho encontrava-se defronte ao freezer. A cada giro das delícias, chupava docemente as suas gengivas enrugadas, as quais não deveriam ver dentes desde a Instrução 70 da saudosa SUMOC. Arfava com a experiência quase sensual que era, para ele, saborear com os olhos o rebolar da torta de maracujá. Buscava controlar o tremor nas mãos esfregando e apertando uma contra a outra, num movimento muito semelhante ao que fazem as mentes do mal - tipo Cérebro - quando estão maquinando um novo e infalível plano para dominar o mundo.

Aquela triste cena capturou de imediato todas as minhas atenções e meu coração, ainda mais porque me encontrava extremante frazilizado pelas reminiscências de minha infância que vieram à tona em uma conversa com minha mãe na noite anterior. Dentre outras, lembrei-me que, desde que aprendi a andar, nunca, mas nunca mesmo, entrei no Zoológico sem pagar. É devastador para uma criança ver a vareta, que separa a gratuidade da compra do ingresso, tocar-lhe sem misericórdia a garganta. Ver seus amiguinhos todos entrando lépidos e fagueiros "de grátis" para ver o Tião, enquanto você recebe arrasado talvez o primeiro dos muitos nãos que a vida lhe dirá... Quem sabe não esta aí a chave de todos os complexos e grilos que fixaram residência em minha cuca?

Mas isso é papo para muitos meses, anos de análise. O que quero dizer é que aquela situação me tocou profundamente. De repente, me vi tomado por um impulso de parar o carro no meio da rua e terminar por atrapalhar de vez o trânsito caótico. Abrir a porta, sair em desabalada carreira para frente da padaria, pegar o velhinho pela mão e enfiar, junto com ele, a cara naquela oferecida torta de limão, que sapeca, a cada giro do freezer, deixava-nos entrever seus delirantes pézinhos...

Entretando, consegui refrear meu ímpeto. Invadiu, minha perturbada mente, uma gota de razão. Podia se tratar de um senhor diabético... Provavelmente estaría fazendo mais mal do que bem, se tivesse levado a diante meu intento...

O trânsito andou um pouco. E depois mais um pouco e, quando já não dava mais para avistar a padaria pelo retrovisor, fui inundado por uma onda de remorso... Deveria, sim, ter seguido meu instinto. Com aquela idade, provavelmente a diabetes já deveria ter lhe cobrado a potência sexual e de uma forma tão avassaladora, que nem a pílula azul é capaz de dar jeito. É bem possível que fosse casado com uma velha bem chata e reguladora, que, todo o dia de manhã, quando ele terminava de colocar o pingado no copo, gritava:

- Aristarco! Não vai melar isso não, hein? Olha o açúcar, meu Deus! Depois, fica dando trabalho aos outros...

Deveria ter ajudado a proporcionar um fim mais digno àquela alma oprimida. Quando não se pode mais decidir quantas colheres de açúcar colocar no seu próprio pingado, não vale mais à pena viver! E quando não se pode, por problemas técnicos, despedir-se dessa vida nos braços aconchegantes de uma bela morena, o melhor a fazer é dar cabo de si em meio ao glace do melhor dos bolos...

terça-feira, novembro 08, 2005

Vazio

Sem pensamentos. Sem idéias. Sem planos ou projetos. Sem rumos ou metas. Sem sonhos e, principalmente, sem sono. Sem emoções. Sem alegrias, mas também sem tristezas. Sem arrependimentos, sem grandes descobertas. Sem prazos. Sem cobranças, compromissos. Sem trabalhos. Sem dores, sem rancores. Sem preocupações, cicatrizes e cáries.

Sem lugares a ir, sem pessoas a conhecer. Sem culturas a provar, sem pratos e sabores a vivenciar. Sem vinhos a acompanhar. Sem livros a ler, filmes e peças a assistir e sem quadros a sentir. Sem corações a confortar, sem crianças a ninar. Sem histórias a contar, sem "causos" a escutar. Sem passados, sem presentes, sem futuros... Sem esperanças, sem certezas, mas também sem dúvidas.

Sem sons, sem músicas. Sem pássaros e seus cantos. Sem pombas arrulhando, sem sapos coaxando e sem guaxinins fazendo sei lá o que guaxinins fazem. Sem cores, sem pretos e brancos. Sem amores. Sem paixões, sem frios na barriga. Sem corações disparados ou sobressaltos. Sem arquejos. Sem mãos dadas, abraços. Sem olhares furtivos ou os famosos 43. Sem prazeres... Sem fim...

domingo, novembro 06, 2005

Ainda morro disso...

Um sentimento esquisito. Num instante, tudo está bem. Você está calmo, tranqüilo e, de repente, parece que o mundo a sua volta apertou o fast foward. Tudo toma uma velocidade absurda que sua comprensão não consegue de imediato alcançar. No momento em que se está tentando decifrar um vulto amarelo que acabou de passar diante dos olhos, se é supreendido por um azul que passa em direção oposta... O cérebro sobrecarregado parece falhar, tem lapsos tal como um motor afogado... O que antes era cristalino, agora é obscuro...

Corremos à caixa de remédios. Pressionamos a bombinha contra a boca. Damos três jatos do broncodilatador usual e... Nada, não acontece absolutamente nada. A sensação de que há alguém apertando-lhe a garganta, tirando-lhe todo ar, não passa.

Junto a isso, não sei se causa ou consequência, vem um desejo quase irresistível de sair do próprio corpo, um desasossego avassalador. Estando de pé, se quer sentar. Estando sentado, se quer levantar. Sensação igual só é vista quando se aplica Digesan diretamente na veia de um pobre vivente.

Tudo continua a girar como em uma ciranda doidivanas. Gira também, em altas rotações, o coração... Sente-se o fluxo sanguíneo passando tal qual uma tormenta por veias, artérias, capilares... A marcar o compasso, a respiração em acordes crescentes de um finale dramático para uma melodia dissonante.

À beira da loucura, lança-se mão de tudo para recobrar o controle sobre si, seu corpo, seus pensamentos. Ioga? Mesmo não tendo passado da posição "galho-arrancado-pelo-vento-e-jogado-ao-chão" (seção um, ponto três das lições iogues do Mestre Veríssimo), começa-se a escutar, vindo de dentro de si, um ínicio tímido de "Ahummmmm"...

Antes que disquem 192, antes que lhe apresentem um bela camisa branca com mangas bem compridas - pitorescos seres de jaleco dizem ser a última moda em Milão -, reúne-se forças não se sabe de onde e parte-se em desabalada carreira para junto de uma velha vitrola. Primeiro Dancing cheek to cheek, depois Luck be a Lady e assim por diante... I won´t dance, The Lady is a Tramp, aos poucos tudo vai se aquietando, a paz volta a reinar dentro do peito. O encontro com Deus se dá quando o primeiro gole de Coca-Cola toca o céu da boca. A sensação de cócegas irresítivel quando as bolinhas de gás começam a estourar, tudo isso ao som de Everybody Loves Somebody Sometime... Sinatra e Coca-Cola podem fazer mágica por você!

sábado, novembro 05, 2005

Respostas... Onde estão as malditas Respostas?


Sempre achei Charlie Brown & Cia de uma profundidade filosófica abissal. Procurei pautar minha existência, desde tenra idade, pelos princípios, que minha conhecida estreiteza mental, permitiu-me depreender das tirinhas de Scultz. Mesmo depois de velho, quando já me foram apresentados Nietzsche, Kant, Schopenhauer, entre outros, ainda não abro mão do velho Chuck e da Grande Abóbora quando preciso pensar um pouco sobre essa grande caixa preta que é a vida. Juntamente com o que chamo de “filosofia do flanelinha” - “Deixa solto, Chefe!” -, Charlie e sua patota formam o núcleo duro do paradigma por meio do qual procuro entender as coisas que acontecem comigo, com os outros e com o mundo. Portanto, compartilho agora mais uma pílula de sabedoria, que é certamente mais honesta e potencialmente mais eficaz que qualquer um desses best-sellers de auto-ajuda.