Buraco do Pai Popin Reloaded

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Numa noite dessas...

O tempo passa no relógio digital. Rolo para um lado, para o outro. Procuro uma posição confortável, procuro alguém que chamo e não vem. Em seu lugar, vejo ela, a mesma que de vez em quando deve importunar vocês também. Por uma razão a mim obscura, pareço ser um de seus amantes prediletos. De início, tento evitá-la. Coloco o travesseiro por cima da cabeça, quando ela, sestrosa, estica seus braços para me laçar. Logo desisto e me entrego ao inevitável.

O Corujão - uma opcão sempre válida em situações como essas - não está passando nenhum clássico. Perco a paciência, que já está curta, na segunda cena do filme de segunda. Nada mais apropriado. Desligo a TV e ligo o rádio numa dessas estações light FM. Porta aberta para a melancolia e o saudosismo: baladas românticas tipo consultório de dentista e o silêncio das três da madrugada.

Dentro em pouco, flagro-me em meio a pensamentos desconexos. A disputa de pênaltis na decisão do Inter-Turmas do colégio de 92 - porque não dei uma bicuda rasteira no canto? -, pessoas, coisas, momentos que passaram pela vida. Sinto saudades até daquilo e daqueles que não vi, não conheci, não senti.

Não sei como chego lá, mas é fato que começo a fazer elucubrações a cerca do amor. O que consigo resgatar desse emaranhado de idéias é que, a meu ver, a última trincheira resilente do amor é o sentimento que une pais e filhos. Por mais que meu lado amargo tente me convencer de que nem isso é amor, está mais para o desejo egoísta de imortalidade, de continuar ad infinitum a caminhada aqui na Terra, utilizando os descendentes como um meio desesperado para tal, fico com meu primeiro pensamento.

É aí que se levantam os românticos injuriados e brandam em altas vozes: " O amor entre homem e mulher não existe?". Acalmem-se frágeis e inquietos corações! Esse existe sim, mas não é propriamente A-M-O-R como aquele que primeiro destaquei. Trata-se de outra categoria, para qual tenho até uma definição. Amor, nesta acepção, é aquele meia canhotinho, habilidoso que acabou de subir dos juniores para o profissional. De início, um furor, badalado pela mídia. Antes dos 20, já passou por uma dúzia de clubes nacionais e estrangeiros. Então, é apenas Desejo. Com 25, está acabado para o futebol, arrastando-se no brioso Seres da segunda divisão carioca. Agora, enfim, é apenas e tão somente Indiferença.