Buraco do Pai Popin Reloaded

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Compasso de espera

Estou pronto. Banho tomado, gomalina no cabelo. Passei minha melhor colônia - uma chinfrim, com cheiro de motel barato, que um dia foi de meu avô. Sapatos engraxados, nó windsor na gravata verde musgo, um colete cinza por cima para me proteger do frio que faz aqui fora... Estou na varanda, sentado em uma cadeira de balanço. Tenho uma garrafa de Johnnie, um maço de Luckies, Chet Baker no rádio. Tenho tempo e estou pronto.

Seja para trocar uma lâmpada, contar uma história, ou melhor, escutar uma história. Fazer cálculos, projeções, desenhar cenários... Dar ordens, receber ordens. Fazer coisas acontecerem, ajudar a terminar com outras que seguem capengas por pura e sagrada preguiça. Quem sabe até varrer uma rua no centro da cidade, envergando um unioforme abóbora que não deixa nada a desejar aos trajes Armanis, Versaces daqueles que desprezo profundamente e tento com todas as minhas forças imitar como um bufão desengonçado de circo.

O ressonar da ave do mau agouro ecoa em meus ouvidos, mas não me tira mais o sono. Já vi praticamente de tudo e, o que ainda não vi ao vivo, vejo nos livros ou nos documentários do Gnt. No entanto, o que importa é que estou pronto e tenho tempo... Calmo e sereno, aguardo.

Aguardo a chance de sair da cancha dos machucados e entrar em campo no momento agudo do jogo. Cobrar a falta ou o pênalti da vitória. Proporcionar também, porque não, o anti-clímax do partida. Jogar de center-field para os Red Soxs e pular o mais alto que puder para agarrar a bolinha que vai se escapando furtiva por cima da cerca. Escutar a multidão incrédula engolir a seco o grito de êxtase que principiava escorregar docemente pela garganta.

Estou pronto para sacudir o mundo de alguém, para fazer a diferença na história, desorganizar conceitos e pré-conceitos, descontruir paradigmas... Estou pronto e aguardo, mas antes tenho de arrumar meu quarto...