Buraco do Pai Popin Reloaded

quinta-feira, novembro 10, 2005

Experiência coletiva

Acho que todo mundo já viu isso pelo menos uma vez...

Um cachorro vira-lata, pulguento, com um cheiro que de tão ruim espanta até as moscas. Lá está ele sentado na frente da padaria. Ninguém lhe dá um pingo de atenção. Pouco lhe importa, pois ele também não está nem aí para os beberões boquirrotos. Seus olhos e seu faro estão totalmente hipnotizados por aquela caixa metálica pesadona, desengonçada. Saliva e, quem sabe, sonha com a asa, o peito, as coxas do frango assado. Parece estar experimentado a mesma sensação que nós, humanos, temos quando nos esparramamos no sofá para assistir aquilo que deixou o Cride "burro muito burro demais". Não é à toa que essa caixa é, no popular, alcunhada de "televisão de cachorro".

Bem, foi mais ou menos isso que eu vi, quando pela manhã me dirigia apressado para um compromisso. A única diferença é que o cachorro não estava lá. Muito menos a super-mega-assadeira-de-frangos-three thousand. Em seus lugares, não deixando nada a dever em termos de atuação para os atores originais, estavam um velhinho, que passava fácil dos 70 anos - não uso a caracterização de cabelos brancos para descrever pessoas mais velhas. Minha cabeça é branca e mal adentrei os vinte -, e um grande freezer giratório, onde estavam dispostas da forma mais lasciva possível bolos e tortas das mais diversas cores e credos.

O bom velho encontrava-se defronte ao freezer. A cada giro das delícias, chupava docemente as suas gengivas enrugadas, as quais não deveriam ver dentes desde a Instrução 70 da saudosa SUMOC. Arfava com a experiência quase sensual que era, para ele, saborear com os olhos o rebolar da torta de maracujá. Buscava controlar o tremor nas mãos esfregando e apertando uma contra a outra, num movimento muito semelhante ao que fazem as mentes do mal - tipo Cérebro - quando estão maquinando um novo e infalível plano para dominar o mundo.

Aquela triste cena capturou de imediato todas as minhas atenções e meu coração, ainda mais porque me encontrava extremante frazilizado pelas reminiscências de minha infância que vieram à tona em uma conversa com minha mãe na noite anterior. Dentre outras, lembrei-me que, desde que aprendi a andar, nunca, mas nunca mesmo, entrei no Zoológico sem pagar. É devastador para uma criança ver a vareta, que separa a gratuidade da compra do ingresso, tocar-lhe sem misericórdia a garganta. Ver seus amiguinhos todos entrando lépidos e fagueiros "de grátis" para ver o Tião, enquanto você recebe arrasado talvez o primeiro dos muitos nãos que a vida lhe dirá... Quem sabe não esta aí a chave de todos os complexos e grilos que fixaram residência em minha cuca?

Mas isso é papo para muitos meses, anos de análise. O que quero dizer é que aquela situação me tocou profundamente. De repente, me vi tomado por um impulso de parar o carro no meio da rua e terminar por atrapalhar de vez o trânsito caótico. Abrir a porta, sair em desabalada carreira para frente da padaria, pegar o velhinho pela mão e enfiar, junto com ele, a cara naquela oferecida torta de limão, que sapeca, a cada giro do freezer, deixava-nos entrever seus delirantes pézinhos...

Entretando, consegui refrear meu ímpeto. Invadiu, minha perturbada mente, uma gota de razão. Podia se tratar de um senhor diabético... Provavelmente estaría fazendo mais mal do que bem, se tivesse levado a diante meu intento...

O trânsito andou um pouco. E depois mais um pouco e, quando já não dava mais para avistar a padaria pelo retrovisor, fui inundado por uma onda de remorso... Deveria, sim, ter seguido meu instinto. Com aquela idade, provavelmente a diabetes já deveria ter lhe cobrado a potência sexual e de uma forma tão avassaladora, que nem a pílula azul é capaz de dar jeito. É bem possível que fosse casado com uma velha bem chata e reguladora, que, todo o dia de manhã, quando ele terminava de colocar o pingado no copo, gritava:

- Aristarco! Não vai melar isso não, hein? Olha o açúcar, meu Deus! Depois, fica dando trabalho aos outros...

Deveria ter ajudado a proporcionar um fim mais digno àquela alma oprimida. Quando não se pode mais decidir quantas colheres de açúcar colocar no seu próprio pingado, não vale mais à pena viver! E quando não se pode, por problemas técnicos, despedir-se dessa vida nos braços aconchegantes de uma bela morena, o melhor a fazer é dar cabo de si em meio ao glace do melhor dos bolos...