Buraco do Pai Popin Reloaded

domingo, julho 17, 2005

Positivo e operante vols. 1 & 2

Depois de semanas de exílio meio voluntário, meio forçado pelas circunstâncias, eis-me aqui emerso das profundezas escuras de meus pensamentos. Retorno a postar aqui não por ter algo genial a escrever - se é que alguma vez já existiu genialidade em minhas linhas porcas e mal diagramadas-, muito menos por ter algo de novo e excitante a contar, já que minha reles existência anda tão emocionte quanto a Série Mundial de Pôquer transmitidada ao vivo pela ESPN Internacional com direto a Casagrandes e Falcões comentando cada lance deste jogo que sempre foi para mim uma caixa preta. Retorno antes, para render homenagens a um filme que conseguiu prender minha atenção, fato raro ultimamente: "As Invasões Bárbaras".
Esse é um post que há muito queria escrever, mas que foi postergado em favor de outros que se atiraram a frente dele com uma urgência de sair de dentro de minhas entranhas tal que se fizeram passar por mais importantes diante de meus olhos. A seca criativa que se faz agora minha companheira de primeiro momento me compele a resgatá-lo de dentro de meu baú idéais antigas e emboloradas, mas que apesar dos pesares são minhas. Ao meu ver é muito mais honesto do que lançar mão do clichêzinho barato de escrever sobre o fato de não ter o que escrever, artimanha tão ou mais manjada que a piada do seringueiro que vive no meio do mato tirando leite do pau.

O primeiro filme -"As Invasões..."- desde já faz parte da diminuta lista de filmes que ao final me deixaram uma sensação esquisita. Essa sensação esquisita, tão ou mais difícil de explicar do que cem mil dólares na cueca, é uma espécie termômetro pessoal que me avisa se o filme é bom ou é ruim. Se findo a ação sinto alguma forma de desconforto, tal como uma pulga atrás da orelha, tenho certeza que durante aqueles minutos em que duraram o filme estive diante de um bom material. Lanço mão desse recurso bizarro porque no que diz respeito à arte cinematográfica sou o que se pode chamar de suíno. Estou sempre lá de boca aberta esperando o próximo lixo que o Tio Sam vai me empurrar goela abaixo. Tenho total consciência que um cidadão que acha "Armagedon" um filme até que legalzinho, não pode ser parâmetro para nada.
Minha mente tacanha e minha compreensão limitada me impedem de fazer uma ánalise embasasada da película, mesmo que meu lado petulante se sinta tentado a proceder assim. Meu entendimento do filme pode ser enquadrado na categoria "escutei o galo cantar, mas não sei onde", isto é, fiquei meio que submerso - ou o popular boiando - na piscina de teses, antíteses, dogmas, crenças e digressões filosóficas que são construídads e desconstruídas no desenrolar do filme. Sendo assim, concentrarei minhas energias em discutir três aspectos do filme.

O primeiro diz respeito ao fato de se tratar de uma produção francesa, ou melhor, de uma produção canadense, mas da parte francofônica deste país. Isto leva a uma constatação aterradora pelo menos para nós, suínos: o filme é todo falado em frânces. Trata-se de uma constatação aterradora, pois sou um daqueles que foi programado a regurgitar refastelado frases como "i will be back" e me tornei ortodoxo nesta estupidez, de sorte que tudo que difere da sacrossanta língua de Shakespeare fere meus infantes tímpanos. Esse estranhamento inicial em outras épocas me faria mudar rapidamente de canal, principalmente se estivéssemos em plenos anos oitenta e noventa, quando uma figura hedionda, baixinha e nariguda muitas vezes deixou minhas manhãs de domingo menos felizes. Mas essas rusgas com a França e os franceses começaram a ser superadas quando o Professor, em um ato de extrema grandeza, veio prestar as últimas homenagens a seu rival histórico, entendendo que ali também morria uma grande parte sua.
Desde então esse processo de reconciliação com a França só faz se tornar cada vez mais forte. Seja a cada nova partida dos Merengues, onde o camisa cinco enche meus olhos com um tratar da bola tão especial e mágico que só pode ser comparado ao trato que Enzo Francescolli, el príncipe, dispensava a mesma, seja quando os franceses tomam novamente a Bastilha após mais de duzentos anos para dizer não a uma constituição européia que visava por fim à Revolução Francesa e a seus desdobramentos ainda em curso, sinto cada vez mais vontade de tomar como minhas as palavras daquele que tinha "um pé na cozinha" e brandar a plenos pulmões "Vive la France!", vontade essa que se faz renovada pelas Invasões.

Os outros dois aspectos são duas cenas isoladas que em minha humilde opinião merecem algum destaque. A primeira se passa no leito de morte de Rémy onde esse diz a seu filho Sébastien:

"Desejo que você tenha um filho exatamente igual a vc."

Há anos não ouvia uma declaração de amor tão sutíl, tão simples e bonita exatamente por sua simplicidade e essa simplicidade também se faz presente na segunda cena que me chamou a atenção. Nesta, a viciada em heroína - aliás, interpretada por uma atriz lindíssima - dá um beijo febril e ardentemente apaixonado no Yuppie (Sebastien) sem desenrolar nenhum diálogo idiota e meloso de matar diabético. Apenas trocam aqueles olhares que dizem tudo e se beijam.

Ambas as cenas são provas factuais de que se pode tratar no cinema o sentimento chamado amor sem necesssariamente ser piegas, pedante e ridículo. Não precisamos cair de paraquedas numa comédia romântica bobolóide à la Julia Roberts e Sandra Bullock para discutir o amor em todas as suas possibilidades ou não - viram, o lado petulante não só não resistiu a fazer uma análise para o qual não está prepaparado como também aproveitou para caetenear .

Bom, era isso que tinha para falar. Antes de me recolher em meu sombrio buraco e entrincherar-me em meus pensamentos, idiossincrasias e cretices, dou um conselho e penso uma ajuda. Quem não viu "As invasões...", veja. Quem já viu, por favor me diga o nome da bela canção que encerra o filme. Desde já estamos agradecendo a coloboração prestada - viva o Telemarketing!