Tratado sobre minha eloqüência (ou falta dela)
Hoje resolvi dar uma olhada em tudo que "postei" até agora nesses cinco meses em que tenho essa palafita virtual no mar bravio da internet. Há até algumas coisas que prestam, mas em sua grande maioria, meu space é composto por textos - mais uma vez faço uso da licença poética para conferir tal denominação àquilo que eu escrevo - que versam sobre o nada e fazem digressões sobre o coisa nenhuma.
Mas a qualidade e estética da minha produção literária - se é que existem tais coisas em meus textos - não é o que eu quero abordar aqui. O que me chamou atenção naquilo que eu escrevi, de forma até certo ponto perturbadora, é a minha eloqüência. Perturbadora porque em raras ocasiões demonstro tal capacidade ao vivo, fato que me coloca em uma situação complemente surreal, já descrita por Jorge Luis Borges em um de seus contos. Defronto-me com uma "possibilidade de mim" mesmo. Isto é, uma pessoa que não sou eu, mas que finjo que sou para ver com seria se fosse ou algo parecido com isso.
Procurei então algo que pudesse explicar esse outro eu que vive numa conexão 300 Kbps double-flash tão diferente do eu em tons pastéis que circula no mundo real. A única boa razão que achei para minha inexpressividade remonta ao meu passado de gago. Sim, fui gago até mais ou menos uns oito anos de idade. Um gago filho de uma founoaudióloga, ou seja, uma contradição em si. Por maiores que fossem os esforços de minha devotada progenitora, a gagueira só foi embora quando eu e ela, na garagem do meu antigo prédio escutamos aquela frase que aos poucos vem substituindo Cidade Maravilhosa como o hino oficial da nossa querida São Sebastião do Rio de Janeiro:
- Perdeu "Prayboy"!
Mas como quase ninguém passa impune por uma gagueira, comigo não poderia ser diferente e fiquei com seqüelas que me atormentam até os dias de hoje. Raramente me atrapalho quando falo, apesar de ter de me po...po...policiar bastante. O problema agora se encontra na escrita. Por incrível que possa parecer sou gago quando pego caneta, papel e tento escrever algo. Por diversas vezes repito a mesma palavra, quando não ocorre de eu travar quando vou escrever um "C" ou um "6". Chega até ser engraçado eu tentando doutrinar minha rebelde mão, fazendo uma força sobre-humana para fazer a mísera voltinha do "C".
A gagueira também se faz presente em outros campos da minha vida. Meu forehand, por exemplo, devido a alguma força sinistra da natureza também é gago. A mecânica do movimento fica esquisita, como que se fosse remixada.
Também pensando, na maior parte das vezes, gaguejo. Quando confrotado com uma pergunta cara-a-cara então, o gaguejar mental piora consideravelmente e, se ainda insisto em dar uma resposta a pobre alma que está a falar comigo, a coisa fede de vez. Ou falo de forma quase que ininteligível algo, muitas vezes, não relevante ao assunto, ou retorno aos meus "bons" dias de gago vocal. Por isso, em ambientes novos, cercado de pessoas com as quais não estou acostumado, procuro me manter calado rezando para não me passarem a palavra. Esse é o grande pesadelo de um seqüelado pela gagueira, quando todas os indivíduos de um grupo voltam sua atenção para ele.
Tal comportamento - meio lunático, concordo - pode fazer os outros pensarem que sou um sujeito convencido, metido. Ou pior, as pessoas podem pensar que eu não gosto delas. Na verdade, são poucos os viventes contra os quais tenho algum tipo de revolta, pois afinal de contas definitivamente não tenho vocação para Gandhi. Aliás, um desses seres maldiltos - desculpe incomodá-los com isso, mas vai me poupar anos de terapia - é minha professora de música do pré-primario. Aquela véia desgraçada me negou o reco-reco. O reco-reco, como todos sabem, é o "spalla" da Sinfônica de Berlim "do amanhã". Fui relegado a ignomínia do coquinho. Sou um gênio musical indômito inexplorado, mas isso é outra estória. O ponto aqui é que por debaixo da gagueira total e irrestrita, sou até um cara bacana...
Mas a qualidade e estética da minha produção literária - se é que existem tais coisas em meus textos - não é o que eu quero abordar aqui. O que me chamou atenção naquilo que eu escrevi, de forma até certo ponto perturbadora, é a minha eloqüência. Perturbadora porque em raras ocasiões demonstro tal capacidade ao vivo, fato que me coloca em uma situação complemente surreal, já descrita por Jorge Luis Borges em um de seus contos. Defronto-me com uma "possibilidade de mim" mesmo. Isto é, uma pessoa que não sou eu, mas que finjo que sou para ver com seria se fosse ou algo parecido com isso.
Procurei então algo que pudesse explicar esse outro eu que vive numa conexão 300 Kbps double-flash tão diferente do eu em tons pastéis que circula no mundo real. A única boa razão que achei para minha inexpressividade remonta ao meu passado de gago. Sim, fui gago até mais ou menos uns oito anos de idade. Um gago filho de uma founoaudióloga, ou seja, uma contradição em si. Por maiores que fossem os esforços de minha devotada progenitora, a gagueira só foi embora quando eu e ela, na garagem do meu antigo prédio escutamos aquela frase que aos poucos vem substituindo Cidade Maravilhosa como o hino oficial da nossa querida São Sebastião do Rio de Janeiro:
- Perdeu "Prayboy"!
Mas como quase ninguém passa impune por uma gagueira, comigo não poderia ser diferente e fiquei com seqüelas que me atormentam até os dias de hoje. Raramente me atrapalho quando falo, apesar de ter de me po...po...policiar bastante. O problema agora se encontra na escrita. Por incrível que possa parecer sou gago quando pego caneta, papel e tento escrever algo. Por diversas vezes repito a mesma palavra, quando não ocorre de eu travar quando vou escrever um "C" ou um "6". Chega até ser engraçado eu tentando doutrinar minha rebelde mão, fazendo uma força sobre-humana para fazer a mísera voltinha do "C".
A gagueira também se faz presente em outros campos da minha vida. Meu forehand, por exemplo, devido a alguma força sinistra da natureza também é gago. A mecânica do movimento fica esquisita, como que se fosse remixada.
Também pensando, na maior parte das vezes, gaguejo. Quando confrotado com uma pergunta cara-a-cara então, o gaguejar mental piora consideravelmente e, se ainda insisto em dar uma resposta a pobre alma que está a falar comigo, a coisa fede de vez. Ou falo de forma quase que ininteligível algo, muitas vezes, não relevante ao assunto, ou retorno aos meus "bons" dias de gago vocal. Por isso, em ambientes novos, cercado de pessoas com as quais não estou acostumado, procuro me manter calado rezando para não me passarem a palavra. Esse é o grande pesadelo de um seqüelado pela gagueira, quando todas os indivíduos de um grupo voltam sua atenção para ele.
Tal comportamento - meio lunático, concordo - pode fazer os outros pensarem que sou um sujeito convencido, metido. Ou pior, as pessoas podem pensar que eu não gosto delas. Na verdade, são poucos os viventes contra os quais tenho algum tipo de revolta, pois afinal de contas definitivamente não tenho vocação para Gandhi. Aliás, um desses seres maldiltos - desculpe incomodá-los com isso, mas vai me poupar anos de terapia - é minha professora de música do pré-primario. Aquela véia desgraçada me negou o reco-reco. O reco-reco, como todos sabem, é o "spalla" da Sinfônica de Berlim "do amanhã". Fui relegado a ignomínia do coquinho. Sou um gênio musical indômito inexplorado, mas isso é outra estória. O ponto aqui é que por debaixo da gagueira total e irrestrita, sou até um cara bacana...

0 Comments:
Postar um comentário
<< Home