Buraco do Pai Popin Reloaded

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Blue eyes

Já se conheciam a algum tempo, mas ele nunca havia prestado muito atenção nela. Para dizer a verdade, prestar atenção definitivamente não era a dele. Até que as grandes coisas ele se dignava a dar uma olhadinha, mesmo que de relance, mas as pequenas coisas lhe passavam desapercebidas tal como a votação para a presidência da câmara de deputados...por sinal ganhou um tiozinho coroa com cara daqueles veinho cachaceiro que acorda todo dia de manhã tremedo para tomar um gole da mardita...para piorar é chegado a um nepotismozinho e foi filado a Arena (fim da divagação, retorno ao texto principal)...

Um dia, num bate-papo prosaico, não sei por qual motivo - Paulo Coelho com certeza sabe. Não seria o universo conspirando a nosso favor, ó grande Mago? - os olhares de ambos se cruzaram não mais que pelo espaço de dez segundos. Mas esses dez segundos foram mais que suficientes para ele mergulhar profundamente no maior azul dos olhos dela. No mesmo instante foi preenchido por uma sensação esquisita, não que não fosse boa, mas era esquisita. Não sabia o que era aquilo que lhe invadia e roubava-lhe o ar. Era asmático. Bom devia ser isso. Logo deu um "tapa" na bombinha e achou que estava tudo resolvido.

Mais alguns dias e percebeu que estava viciado. Não, não se tornara um adicto do fármaco dilatador dos brônquios. Estava completamente vidrado naqueles olhos azuis. Procurava-os a todo instante, em todos os lugares e situações. Na maioria das vezes não era correspondido, mas as poucas vezes em que era faziam valer a devoção que lhe drenava as forças e todo o senso de ridículo. Descobriu-se apaixonado, idiotamente apaixonado.

Considerou seriamente lançar-se a própria sorte, como dizem por aí "se jogar pra ver no que dá". Precisava de um conselho sensato naquele momento. Imediatamente outros olhos azuis vieram a sua mente. Precisava urgentemente conversar com Sinatra, afinal ele foi, é e será o cara e com certeza saberia o que fazer numa situação dessas. Mas como ter esse tête-à-tête? A Voz não está mais entre nós. Duas opções lhe ocorreram: sessão espírita "misinfio" ou através dos cd's mesmo. Sua notória mão fechada lhe impediu de empregar recursos na contratação dos fantásticos serviços de mãe Sueli...ficou com a segunda opção.

Decidiu-se por colocar seu cd favorito do Frankie no aparelho de som e teclar random (descobri uma utilidade para a maldita!). A música que tocasse serviria de base para tomar alguma decisão. Tal não foi a surpresa dele quando reconheceu as primeiras notas de I've got you under my skin, sua preferida. Não precisava nem mais continuar. Estava claro. Sinatra vaticinava: "...Don't you know you fool, you never can win...use your mentality, wake up to reality...". Resolveu seguir o mestre. Ficou na sua.

A vontade de encontrar os olhos azuis dela não diminuía. Nalqueles poucos segundo em que cruzavam o olhar, aquele mar azul, límpido e sereno era dele, só dele e de mais nínguém. O passar dos dias, horas e meses só aumentava essa vontade, ao mesmo tempo em que separava os caminhos dele e dela. Os encontros escasseavam devido aos misteriosos e cruéis rumos da vida.

Da última vez que a viu, sabia bem lá no fundo que seria a derradeira. Seus sentimentos foram confusos. Por um lado sentiu um ciúme quase que incontido por descubrir que os olhos azuis eram agora de outro. Por outro, ficou sinceramente feliz pela aparente felicidade que ela externava...despediu-se ali daquele mar que foi sua morada por alguns bons anos. Mas como já esperava não foi um "adeus", foi apenas um "até logo", pois os olhos azuis ainda aparecem constantemente para roubar-lhe o ar nos seus sonhos.